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Novos Retratos de Família

Ela me conta, via chamada de vídeo:

Jobis GuerraArquivo2 min de leitura
Novos Retratos de Família

Ela me conta, via chamada de vídeo:

“a vida toda vi o “retrato de família” dos meus avós, e sempre tinha isso como ideal de felicidade, sabe? A minha avó aparecia elegante, bem disposta, com uma escadinha de três cabeças ao seu redor, com meu avô com o braço passado pelos seus ombros, com um portão grande, de ferro trabalhado, ao fundo. Olhando aquilo, era como se eles fossem a receita certa para atravessar aqueles portões, que seriam o da Felicidade, prometendo uma vida plena”.

Secularmente fomos ensinados que as famílias ideais se compunham de pai, mãe e filhos, preferencialmente um casal deste último. Casais sem filhos eram uma incongruência incompleta; filhos sem pais eram enjeitados bastardos: se você não tinha um nome, não tinha nada. Além disso, a união deveria ocorrer entre pessoas parecidas em idade, região geográfica e condição econômica.

Sempre vale destacar que esse ideal não se baseava na satisfação dos envolvidos, ou como exatamente viveriam todos que, por qualquer motivo, terminassem nas margens dessa moldura familiar.

Especialmente para as mulheres, os padrões eram bem rígidos e difíceis de atingir. Um talhe formoso, modos femininos, disposição e submissão na mesma medida, fizeram com que muitas fossem sumariamente classificadas com epítetos tão conhecidos de todos nós, que não há necessidade de repeti-los, para que se compreenda a que nos referimos.

A conexão congela. Eu peço que ela repita:

“Eu estou dizendo que logo entendi que isso não era pra mim. A casa da minha avó sempre era imaculada, e, quando eu saí de casa pra estudar fora, nunca achava tempo para manter tudo tão arrumado, ainda mais porque os horários eram insanos e as outras meninas que dividiam o apartamento, colocavam a ordem do lugar apenas no patamar de evitar uma proliferação de uma falna insalubre. Quando minha mãe foi me visitar, declarou que eu vivia em um chiqueiro e que nunca encontraria um bom marido desse jeito. Estávamos nos anos 80 e eu me via presa entre dois mundos. De um lado, o ideal da minha avó. Do outro, ante a constatação crescente de que eu não era boa o bastante para isso, o questionamento que se impunha: o que eu vou fazer do resto da minha vida? Eu não servia pro que esperavam de mim, mas onde eu me encaixaria?”

Nas margens dessa moldura perfeita, muralhas de preconceito, invisibilidade e solidão uniam-se aos sofrimentos inenarráveis de quem coube nesse ideal, mas jamais encontrou nele a felicidade prometida. É que a realização não reside em estruturas fixas, mas em aspectos, muitas vezes, invisíveis aos olhos. ASSIM é QUE “TER UM BOM CASAMENTO” NEM SEMPRE REDUNDA EM “TER UM CASAMENTO BOM”.

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